domingo, 1 de julho de 2012

ENSINAR A IDENTIDADE TERRENA ( Edgar Morin 4º saber )

Sebastião Freitas de Souza



Resumo


Este trabalho busca compreender como a identidade humana se constitui no jogo através do diálogo entre o homem e o mundo. A identidade de cada ser é fundamental para distinguir um indivíduo de outro, um grupo de outros grupos ou uma civilização de outra. O homem constitui e modela sua identidade ao tomar contato com o mundo e com a cultura humana como um todo. A identidade pode ser compreendida no diálogo da unidade e da diversidade como sendo duas dimensões inerentes, antagônicas e complementares da espécie humana. A identidade, sendo uma e múltipla ao mesmo tempo, contempla as diferenças que caracterizam os povos que habitam o mesmo planeta. A construção de uma identidade planetária requer uma educação escolar que reconheça e respeite a diversidade e a pluralidade cultural dos povos. Cabe à educação escolar despertar uma consciência antropológica que contemple a identidade do ser humano. É necessário repensar o papel da escola como fonte principal e a base de afirmação de identidades num mundo globalizado em que vivemos.

Palavras-chave: Identidade Humana, Educação Escolar.


DESENVOLVIMENTO


A identidade humana é uma característica de cada ser que permite distinguir um indivíduo de outro, um grupo de outros grupos ou ainda uma civilização de outra. Refere-se, de modo específico, às características próprias de cada um, da espécie humana e da sociedade. Ela marca a cada um de nós, individualmente, e ao mesmo tempo nos diferencia enquanto espécie humana de outras espécies.
É um produto de nossa evolução cósmica antropológica e cultural e se constrói de maneira gradativa por meio das interações sociais.
Segundo (Morin) sugere que busquemos a compreensão do mundo, do humano e da humanidade tendo como base instrumentos de um conhecimento complexo, pois estes têm a pretensão de conceber, inseparavelmente, o diálogo da unidade e da diversidade humana.
Ao escrever sobre a identidade humana o autor recorre às mais diferentes fontes e áreas do conhecimento humano como a: Filosofia, Literatura, Religião, História, Antropologia, Sociologia, Psicologia, enfim aos grandes pensadores dessas ciências que abordam a gênese e a evolução do homem.
O homem dá início à constituição de sua identidade ao entrar em contato com o mundo, transforma a natureza e produz diferentes culturas. Segundo Morin (2002, p.64) “A cultura constitui a herança social do ser humano, assim como, as culturas alimentam as identidades individuais e sociais no que elas têm de mais específico. Por isso, as culturas podem mostrar-se incompreensíveis ao olhar das outras culturas, incompreensíveis umas para as outras”.
Os traços mais marcantes da identidade de cada um, portanto, são produzidos no seio de cada cultura, compondo, dessa forma, identidades múltiplas e diferenciadas. Na relação com os outros seres humanos e com as outras culturas nós nos tornamos, ao mesmo tempo, semelhantes e distintos. Nos traços de cada homem genérico estão, também, os traços de sua especificidade.
Para (Morin) nossa identidade biológica e social liga-se à nossa identidade humana e planetária revelando-se a cultura o capital humano fundamental.
Biologicamente o ser humano nasce e se desenvolve como um ser ainda não acabado, cabendo à cultura a tarefa de moldar esse homem enquanto indivíduo e enquanto membro de uma espécie e de uma sociedade. As culturas alimentam e moldam as identidades individuais e sociais naquilo que elas têm de mais profundo, contraditório e específico.
Para Morin (2002, p. 165): “a cultura é a emergência maior da sociedade humana”. O processo de complexidade da evolução individual e social encontra-se na cultura, sua fonte gerador-regeneradora. Morin (2002) observa que a nossa identidade humana é constituída numa relação tríade indivíduo/espécie/sociedade.
Assim, a identidade humana é construída mediante a existência desses componentes os quais são inerentes para a formação global do ser. Por isso, a formação correta é fundamental ao ser humano.
No geral, se sabe que o ser humano é algo muito complexo e difícil de entender, e, para compreendê-lo com mais detalhes apenas é necessário integrá-lo numa cultura, num contexto histórico, mas principalmente, inseri-lo nessa trindade humana, onde conforme (Morin, 2002, p.94). “o indivíduo não é noção primeira nem última, mas uma noção central da trindade humana”. Mesmo contendo a multiplicidade o indivíduo permanece como um sujeito único e, desta forma, continua o autor (p.95) “os outros moram em nós; nós moramos nos outros [...]”.
Em meio à dualidade e à multiplicidade terrena somos únicos, e conseguimos inserir em nós o diferente. Nossa identidade consegue agregar várias dimensões e características. Sendo assim, a nossa personalidade revela uma identidade multiforme, ou seja, cada pessoa é singular, porém, ao mesmo tempo é duplo, plural e diverso.
Buscando uma explicação mais plausível quanto nossa identidade humana e cultural Morim nos responde fazendo a seguinte pergunta: Quem somos nós? E responde esclarecendo que (2004, p.89): “Temos uma natureza biológica, uma natureza social, uma natureza individual”.
E prossegue: “A verdadeira complexidade humana só pode ser pensada na simultaneidade da unidade e da multiplicidade” (p.90). Enfim, somos semelhantes e, ao mesmo tempo, diferentes uns dos outros, por um processo evolutivo biossocial.
As identidades humanas se formam num mundo caracterizado pelas diferenças culturais, nos mais variados tempos e lugares. As sociedades mais remotas que se organizavam em duas classes, produzindo as primeiras e grandes diferenças biológicas de sexo e de idade. As classes masculina e feminina vão sendo construídas pelas diferentes práticas das famílias e funções profissionais.
Desta forma que, segundo Morin (2002, p.164), é desde alguns dos seus traços fundamentais comuns que as sociedades arcaicas começam a se diversificar pelo emprego de diferentes línguas, crenças, mitos e formas de organização familiar e social. A partir de uma origem comum e local “as sociedades arcaicas multiplicaram-se, todas parecidas, todas diferentes, e espalharam-se pelo planeta” (p.164).
O que o autor investiga é a formação e o desenvolvimento das principais identidades e escreve as nossas marcas identitárias mais perceptíveis ao longo da história de nossa civilização. Ele começa escrevendo sobre nossa identidade individual que está inserida a uma identidade social. A cultura como “patrimônio organizador” e “emergência maior da sociedade humana” (Morin, 2002, p.165) produz uma identidade social desde as sociedades arcaicas até as mais recentes.
Indivíduo e sociedade, desta forma a relação entre eles revela que “o indivíduo está na sociedade que está o indivíduo” (2002, p.167). Os indivíduos produzem a sociedade, que por sua vez produz os indivíduos. Assim, produzimos a sociedade que também nos produz ao mesmo tempo.
Essa interligação entre o indivíduo e a sociedade é sempre constante.
Um dos desafios da educação escolar em nossos dias é desenvolver e despertar no humano, a possibilidade para a formação da sua identidade, permitindo uma compreensão da totalidade humana no mundo plural. Para que isso ocorra, é necessário entender o processo da constituição da história da humanidade desde os primórdios até a atual época planetária.
Entre os principais valores que a escola deve cultivar e promover no mundo atual é o do respeito à diferença, que pode ser traduzido como aceitação do pluralismo, da tolerância, da abertura à crítica, da realização do diálogo com respeito e do debate das ideias.
A educação escolar precisa sofrer uma grande transformação de tal forma que a organização transdisciplinar e complexa, capaz de expor conhecimentos relacionados, onde educadores e alunos aprendam a se situar e a se compreender no universo em que vivem e atuam para poderem construir uma identidade individual, da espécie e da sociedade num mundo com características planetárias. Isso na verdade, não está sendo fácil porque “nossa educação nos ensinou a separar, compartimentar, isolar, e não a ligar os conhecimentos, e, portanto nos faz conceber nossa humanidade de forma insular, fora do cosmos que nos cerca e da matéria física com que somos constituídos” (Morin; Kern, 2000, p.48). Ora, concluem os autores: “A sociedade/comunidade planetária seria a própria realização da unidade/diversidade humana” (p.127).
Por fim, não somente a escola, mas, toda a sociedade necessita está alicerçada nesses princípios para que tenhamos uma população mais aberta ao diálogo e consciente da diversidade e da unidade que existe na relação entre o indivíduo e a sociedade em que vive.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MORIN, Edgar. O método V: a humanidade da humanidade. Porto Alegre: Sulina, 2002.
_____Sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: Unesco, 2000.
MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. Terra-Pátria. Porto Alegre: Sulina, 2000.




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